
O brasileiro entra em mais um ano com incertezas no campo econômico. A instabilidade não é fruto apenas de fatores externos ou conjunturais, mas de escolhas internas que se repetem e aprofundam fragilidades estruturais. Crescimento baixo, inflação persistente, renda comprimida e consumo enfraquecido formam um quadro conhecido, porém cada vez mais difícil de sustentar.
Para o trabalhador, a equação é direta e cruel: endividamento crescente, insegurança no emprego e perda contínua do poder de compra.
As projeções oficiais apontam crescimento de 2,3% em 2025, com leve revisão para 1,6% em 2026. Números que, isoladamente, poderiam sugerir algum otimismo. Entretanto, a inflação sentida destoa da medida (IPCA), cuja meta é de 3% e sem sinal consistente de convergência no curto prazo. No plano doméstico, é impossível dissociar o aumento generalizado dos preços da escalada do gasto público. Em agosto, o IPCA acumulado chegou a 4,46%, recuando 0,32 ponto percentual, reforçada por um freio no consumo, queda da produção industrial e retração na demanda por serviços.
O próprio Boletim Focus, do Banco Central, desmonta qualquer discurso excessivamente otimista ao indicar inflação acima da meta até 2027. Ao longo do ano, o consumo das famílias perdeu tração, evidenciando um abismo entre a inflação captada pelos índices oficiais e aquela efetivamente sentida no bolso da população.
Essa diferença não é estatística: é social! Ela decorre da queda da renda disponível, do enfraquecimento do mercado de trabalho e do desmonte gradual dos benefícios sociais que funcionavam como amortecedores da crise.
Embora a taxa de desemprego esteja próxima do menor nível histórico, em 5,8% no trimestre encerrado em outubro, o dado esconde uma deterioração qualitativa do emprego. A geração de vagas formais perdeu ritmo, sobretudo na indústria de transformação, setor estratégico que ainda sofre os efeitos diretos das tarifas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras. Menos indústria significa menos empregos de maior renda e maior efeito multiplicador na economia.
O impacto final recai sobre a renda das famílias. O cenário é resultado de uma péssima combinação: inflação persistente, desaceleração do mercado de trabalho e cortes nos programas de transferência de renda. Mesmo com reajustes médios de 5,8% nas Convenções Coletivas entre setembro e novembro, o avanço nominal não tem sido suficiente para compensar o custo de vida. O endividamento segue em alta, enquanto o poder de compra encolhe de forma silenciosa, porém persistente.
Esse conjunto de fatores lança o país em mais um início de ano marcado pela incerteza, com sinais claros de continuidade da estagflação, fenômeno conhecido do Brasil há mais de uma década. Ocorre quando a economia cresce menos do que a inflação. Não se trata apenas de um problema macroeconômico. Há também um componente comportamental que merece escrutínio, especialmente quando estimulado ou tolerado pelo próprio Estado.
A proliferação das apostas online (bets) e a expansão agressiva do crédito consignado em folha corroem a renda disponível e aprofundam a vulnerabilidade financeira das famílias. A ausência histórica de educação financeira, combinada com a fome arrecadatória do Governo Central para fechar as contas públicas, cria um ambiente de transferência silenciosa de renda do trabalhador endividado para o sistema financeiro e para o caixa do Estado.
O resultado é um país que entra em 2026 sem respostas claras, com problemas antigos reciclados e uma população cada vez mais pressionada entre pagar dívidas, consumir menos e sobreviver a uma inflação que insiste em não ceder.