Apesar da narrativa de crescimento difundida a partir dos indicadores agregados, a economia brasileira deu sinais claros de perda de fôlego ao longo de 2025. Uma leitura mais cuidadosa dos dados de atividade, produção industrial e comércio exterior revela que o avanço atribuído ao ano está mais relacionado a um efeito estatístico herdado de 2024 do que a uma expansão efetiva da economia no período.
A avaliação é do professor Pablo Bittencourt, economista chefe da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) que aponta um viés de percepção na interpretação dos números oficiais.
O melhor exemplo é do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), que mostrou que a economia iniciou 2025 praticamente no mesmo patamar em que encerrou 2024. A variação entre dezembro e janeiro foi próxima da estabilidade, com oscilações modestas ao longo dos meses seguintes.
Segundo Bittencourt, esse comportamento indica ausência de aceleração.
“O que se observa em 2025 não é crescimento, mas estabilidade. O crescimento divulgado é, na verdade, a comparação da média de 2025 com um ano de forte expansão, que foi 2024”, explica.
Os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF), do IBGE, reforçam o diagnóstico de desaceleração. Ao longo de 2025, a produção industrial apresentou desempenho irregular, com maior fragilidade nos segmentos de bens intermediários e bens de capital — diretamente ligados ao investimento e à continuidade da produção.
A redução do ritmo nesses setores é interpretada como sinal de que as empresas passaram a produzir menos diante de uma expectativa de demanda mais fraca.
Outro indicador-chave da desaceleração é o comportamento das importações brasileiras. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2025, houve perda de ritmo no crescimento das compras externas, especialmente de insumos industriais, bens intermediários e máquinas e equipamentos.
Para Bittencourt, esse movimento não deve ser interpretado como ganho de eficiência ou substituição por produção nacional, mas como reflexo do processo de desaceleração da atividade ao longo do ano de 2025.
“A estrutura produtiva brasileira reduziu a demanda por insumos. Isso aparece claramente nos dados de importação”, afirma.
As importações cresceram 0,6% em 2025. Parte relevante dessas importações passa pelos portos de Santa Catarina, reconhecidos pela eficiência logística. Estimativas indicam que entre 40% e 50% das cargas que entram pelo estado têm como destino outras regiões do país.
Ainda assim, a redução no volume movimentado revela uma tendência nacional: menor demanda por insumos produtivos, independentemente do ponto de entrada no território brasileiro.
Em contraste com a fraqueza da demanda doméstica, o desempenho das exportações brasileiras foi um dos poucos vetores positivos em 2025. A abertura de novos mercados e a diversificação dos destinos ajudaram setores produtivos a compensar parcialmente o consumo interno mais fraco.
As exportações de Santa Catarina encerraram 2025 com incremento de 4,4% frente a 2024, alcançando US$12,2 bilhões no ano passado, atingindo novo recorde histórico. O desempenho positivo das vendas externas ocorreu em um ambiente internacional mais adverso, marcado por restrições sanitárias e barreiras tarifárias impostas pelo principal destino das exportações catarinenses, associadas ao menor dinamismo econômico global.
Esse movimento, no entanto, funcionou como válvula de escape, não como motor suficiente para reverter a desaceleração geral.
“Quando se olha o fluxo mensal, fica claro que 2025 foi um ano de desaceleração econômica progressiva”, resume Bittencourt.