O excesso de chuva registrado nas últimas semanas tem aumentado a preocupação dos produtores rurais de Santa Catarina, especialmente em relação às perdas nas lavouras, à qualidade dos grãos e à conservação do solo. Com a intensificação do fenômeno El Niño, a previsão de precipitações acima da média exige atenção ao planejamento das atividades agrícolas e à adoção de medidas preventivas para reduzir os prejuízos no campo.
Na região Oeste, os efeitos já são percebidos principalmente na cultura do trigo, com perdas na produção e comprometimento da qualidade dos grãos que ainda não foram colhidos. As condições de umidade também interferem no desenvolvimento do milho e atrasam o avanço do plantio da soja. Além dos impactos diretos sobre as culturas, a erosão provocada pelas chuvas representa uma preocupação para a sustentabilidade da atividade agrícola, devido à perda de terra e de nutrientes essenciais para a produção.
Diante desse cenário, a Epagri mantém o acompanhamento das condições meteorológicas e reforça as orientações aos agricultores. Em entrevista ao programa Radar, da Rádio Centro Oeste, o coordenador regional da instituição, Mircon Frühauf, explicou como o trabalho de monitoramento foi iniciado antes da intensificação do fenômeno, quais prejuízos já foram identificados e quais medidas podem ajudar a reduzir os impactos nas propriedades rurais.
O acompanhamento das condições climáticas começou ainda durante as primeiras previsões relacionadas ao El Niño. A Epagri, por meio do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram), monitora os dados meteorológicos em conjunto com a Defesa Civil e outros órgãos da rede nacional.
Segundo Frühauf, as informações são utilizadas para antecipar riscos e orientar as decisões dos agricultores, sem criar alarmismo sobre possíveis ocorrências climáticas.
“Desde o momento que ele começou a ser previsto, ações já foram tomadas”, destacou o coordenador.
Um dos primeiros trabalhos ocorreu em março, durante o planejamento do cultivo do trigo. Naquele momento, a instituição já alertava para a possibilidade de chuvas acima da média, especialmente em um período em que o excesso de umidade poderia prejudicar o desenvolvimento e a colheita da cultura.
Os efeitos das condições climáticas já aparecem nos resultados da cultura do trigo em Santa Catarina. De acordo com os levantamentos apresentados por Frühauf, a área cultivada passou de aproximadamente 104 mil hectares na safra anterior para 68 mil hectares na atual, uma redução de cerca de 30%.
A diminuição está relacionada, entre outros fatores, aos riscos climáticos identificados antes do plantio. Mesmo com uma área menor, as chuvas já provocam prejuízos em lavouras que estavam próximas da colheita ou ainda aguardavam a retirada dos grãos.
Outro problema é o comprometimento da qualidade do trigo. O coordenador relatou que a Epagri já recebeu registros de produtores mostrando grãos germinando ainda nas espigas, situação que pode prejudicar o aproveitamento da produção para a fabricação de farinha.
“Já recebemos várias fotos do trigo já com brotinho ali”, relatou Frühauf, ao explicar que parte dos grãos pode perder a qualidade necessária para essa finalidade.
Além dos danos às culturas, a degradação do solo é apontada pela Epagri como um dos principais prejuízos provocados pelas chuvas na região. A força da água pode remover a camada superficial da terra e carregar nutrientes utilizados pelas plantas, comprometendo a capacidade produtiva das áreas agrícolas.
Segundo o coordenador, episódios de chuva intensa já provocaram erosão em propriedades de municípios da região. A reposição dos nutrientes perdidos e a recuperação das condições do solo podem representar custos elevados para os agricultores.
“O maior prejuízo que a gente está tendo é no solo. Essa é a nossa maior riqueza, ela é a base de sustentação da agricultura”, afirmou.
Na cultura do milho, o plantio da safra principal está praticamente concluído. Entretanto, o excesso de chuva já interfere em algumas lavouras e exige cuidados adicionais no manejo.
A Epagri orienta os agricultores a avaliar as condições de cada área e adotar estratégias para reduzir os riscos de doenças favorecidas pela elevada umidade. Outro ponto de atenção é a adubação nitrogenada, pois as chuvas intensas podem provocar perdas do fertilizante antes que ele seja aproveitado pelas plantas.
A recomendação é dividir a aplicação do nitrogênio em mais etapas, em vez de concentrar a operação em uma ou duas aplicações. A medida busca melhorar o aproveitamento do nutriente, embora a umidade do solo possa dificultar a entrada de máquinas nas lavouras.
"Você não pode aplicar numa vez porque ele é muito suscetível ao excesso de chuva, vai embora e perde”, explicou Frühauf.
Em relação à área cultivada, a estimativa da Epagri indica que o milho para grãos deve passar de aproximadamente 265 mil hectares na safra 2025/2026 para 275 mil hectares em 2026/2027, um aumento próximo de 4%. O coordenador também apontou uma pequena elevação na área destinada à produção de silagem.
A soja também exige atenção neste período. Embora o plantio já tenha começado, o volume de chuva dificultou o avanço dos trabalhos no campo, deixando uma parcela da área prevista ainda sem semeadura.
A orientação da Epagri é que os agricultores acompanhem as condições meteorológicas e aguardem um período mais favorável para entrar nas lavouras. O objetivo é evitar operações em solo excessivamente úmido, que podem comprometer a implantação da cultura e dificultar o desenvolvimento inicial das plantas.
Conforme os levantamentos apresentados por Frühauf, a área destinada à soja deve registrar uma pequena redução em Santa Catarina na comparação entre as safras 2025/2026 e 2026/2027.
O coordenador reforçou que o planejamento precisa considerar tanto as condições atuais quanto os riscos previstos para as próximas semanas, levando em conta as particularidades de cada propriedade.
Para ampliar o acesso às recomendações, a Epagri prepara um boletim técnico com orientações sobre os cuidados necessários nas diferentes culturas agrícolas diante dos efeitos do El Niño. O documento reúne informações elaboradas por técnicos e pesquisadores e deverá contemplar atividades como o cultivo de grãos e a fruticultura, considerando as diferenças entre as regiões produtoras de Santa Catarina.
Segundo Frühauf, o material estava em fase final de elaboração durante a entrevista e tinha previsão de lançamento ainda em outubro. A proposta é disponibilizar informações práticas para auxiliar os agricultores na tomada de decisões e na redução dos prejuízos.
“Todas essas recomendações são feitas por técnicos e pesquisadores e vão estar sendo disponibilizadas para os produtores”, informou.

A instituição também mantém o monitoramento meteorológico periódico, com a participação de especialistas de diferentes estados na avaliação das condições climáticas e na elaboração de projeções para os períodos seguintes.
Para a Epagri, a combinação entre informação, planejamento e conservação do solo é fundamental para enfrentar as condições adversas. A orientação é que os produtores acompanhem os boletins meteorológicos e técnicos, ajustem o manejo conforme a realidade de cada lavoura e adotem medidas preventivas para preservar a produtividade e reduzir os custos de recuperação das áreas atingidas.











