
O avanço da inadimplência no sistema bancário brasileiro acende um alerta sobre a capacidade de pagamento de consumidores e empresas. Em agosto, o índice de operações de crédito com atraso superior a 90 dias chegou a 5,04%, o maior percentual da série histórica acompanhada pelo Banco Central.
O resultado ocorre em um cenário de custo elevado do crédito, após um período prolongado de juros altos. Com financiamentos e empréstimos mais caros, parte dos tomadores passou a enfrentar maiores dificuldades para manter os pagamentos em dia.
Os dados também precisam ser analisados à luz de uma mudança nas regras contábeis adotadas pelo sistema financeiro. De acordo com o Banco Central, aproximadamente 40% da alta recente da inadimplência está relacionada à implementação da Resolução 4.966, do Conselho Monetário Nacional (CMN).
A norma modificou os critérios utilizados pelas instituições financeiras para classificar operações de crédito e reconhecer perdas. Entre os efeitos está a necessidade de registrar de forma diferente determinadas operações renegociadas, o que contribuiu para elevar o indicador.
Mesmo com esse efeito contábil, o cenário revela dificuldades no mercado de crédito. Entre as pessoas físicas, a inadimplência no crédito livre chegou a 7,8%. No crédito rural direcionado para pessoas físicas, o percentual alcançou 8,8%, também o maior nível da série.
Outro indicador que ajuda a dimensionar a situação é o comprometimento da renda das famílias com dívidas. O percentual chegou a 28,9% em junho, o maior patamar desde o início da série histórica, em 2005.
O ambiente de crédito também apresenta sinais de desaceleração. No segundo trimestre de 2026, o consumo das famílias recuou 0,4%, depois de registrar crescimento de 1,1% nos três primeiros meses do ano.
Para o Banco Central, a combinação entre juros elevados, maior comprometimento da renda e mudanças nos critérios contábeis ajuda a explicar o comportamento recente da inadimplência. A autoridade monetária projeta, ainda, crescimento de 9,1% no saldo total de crédito do Sistema Financeiro Nacional em 2026.
