
O desempenho de adolescentes em leitura atingiu o pior nível registrado neste século, segundo os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2025, divulgados nesta terça-feira (8) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A avaliação é considerada um dos principais indicadores internacionais da qualidade da educação. Nesta edição, participaram cerca de 760 mil estudantes de 15 anos de 91 países e economias. O levantamento mostrou que, além da leitura, matemática e ciências também apresentaram os piores resultados da série histórica iniciada em 2000.
Na leitura, a média dos países da OCDE caiu de 501 pontos, registrada em 2012, para 466 pontos em 2025. Segundo a organização, o desempenho médio atual corresponde ao nível que anteriormente era esperado de estudantes aproximadamente um ano mais novos.
O resultado preocupa porque a capacidade de leitura está diretamente relacionada à aprendizagem em outras áreas. Compreender textos, identificar informações, interpretar argumentos e avaliar diferentes fontes são habilidades necessárias não apenas para as aulas de língua portuguesa, mas também para disciplinas como matemática e ciências.
Um dos fatores associados à queda no desempenho é a mudança nos hábitos dos adolescentes. O relatório aponta uma relação entre o aumento do tempo diante das telas e a diminuição da leitura por prazer.
Nos países da OCDE, os estudantes disseram passar, em média, 3,4 horas por dia útil utilizando dispositivos digitais para lazer. Outros três horas, em média, são destinadas ao uso de aparelhos para atividades relacionadas à aprendizagem, dentro ou fora da escola.
A OCDE também identificou uma relação entre a distração provocada pelos dispositivos e resultados mais baixos. Em 59 dos 82 sistemas educacionais analisados, a distração digital esteve associada a notas menores em ciências.
O secretário-geral da organização, Mathias Cormann, afirmou que o problema não está necessariamente na tecnologia, mas na forma e no tempo de utilização. Segundo ele, quando o uso dos dispositivos ultrapassa cinco horas por dia, os resultados educacionais começam a cair.
Outro comportamento identificado pela avaliação é uma tendência de leitura mais apressada. Os adolescentes passam rapidamente pelos textos e, consequentemente, aumentam a ocorrência de respostas incorretas.
O cenário ocorre em um momento em que smartphones, redes sociais e conteúdos de consumo rápido ocupam cada vez mais espaço na rotina dos jovens. Ao mesmo tempo, a leitura por prazer perde espaço, o que pode dificultar o desenvolvimento da concentração e da capacidade de interpretação.
A expansão das ferramentas de inteligência artificial acrescenta um novo desafio para a educação. De acordo com o Pisa, quase metade dos estudantes utiliza regularmente chatbots de IA para aprender.
O levantamento, porém, encontrou diferenças importantes na forma de utilização dessas ferramentas. Estudantes que recorrem à inteligência artificial para tarefas como escrever redações, resumir textos e pesquisar assuntos apresentaram, em geral, desempenho cerca de 20 pontos menor em ciências, diferença equivalente a aproximadamente um ano de aprendizagem.
Os resultados não significam que a tecnologia necessariamente prejudique a educação. O próprio relatório reconhece que os recursos digitais podem contribuir para a aprendizagem. O alerta está relacionado ao uso excessivo, à distração e à substituição do esforço de leitura, interpretação e construção do conhecimento.
O problema não se restringe à leitura. A pontuação média em ciências caiu de 506 pontos, em 2009, para 486 em 2025. Em matemática, a média passou de 502 para 469 pontos no mesmo período.
O cenário coloca em discussão os desafios enfrentados pelos sistemas educacionais para recuperar a aprendizagem após anos de mudanças na rotina escolar e diante de uma geração cada vez mais conectada.
Os dados também reforçam a necessidade de encontrar um equilíbrio entre tecnologia e métodos tradicionais de aprendizagem, preservando atividades que exigem concentração prolongada, como a leitura de livros e textos mais extensos.



