
A rotina na bovinocultura leiteira exige atenção constante, esforço físico e muita dedicação. Para Varlei Cristiano Gentilini, produtor rural de Iraceminha, no Oeste de Santa Catarina, esses desafios se tornaram ainda maiores depois de um acidente de trabalho que mudou completamente sua vida.
Em agosto de 2023, ao realizar a última tarefa do dia na propriedade da família, Varlei manuseava o equipamento usado para preparar a alimentação do rebanho quando tomou uma decisão que, em segundos, trouxe consequências irreversíveis.
Acostumado a limpar a silagem que ficava nas laterais do vagão desensilador com a máquina desligada, naquele dia ele resolveu fazer diferente. Como o equipamento girava lentamente, acreditou que poderia colocar a mão. O mexedor puxou seu braço e arrancou parte do antebraço direito. “Foi um segundo de bobeira”, relembra.
O período mais difícil veio depois. Por orientação médica, ele precisou ficar afastado do trabalho para evitar infecções, enquanto observava os pais e o irmão manterem a ordenha e os cuidados com os animais. A vontade de voltar era imediata, mas o momento exigia paciência.
Quando retirou os pontos, decidiu mudar a forma de pensar. Em vez de repetir que não conseguia fazer determinadas tarefas, passou a se perguntar o que poderia fazer para conseguir. Aos poucos, a rotina foi sendo reconstruída.
Reaprender a trabalhar não foi simples. Movimentos que antes eram automáticos passaram a exigir criatividade, esforço físico e adaptação constante. Hoje, quase três anos após, Varlei ainda encontra limitações, mas já executa grande parte das atividades na propriedade. Consegue engatar e desengatar implementos, participa da ordenha e auxilia na vacinação dos bois. Em alguns momentos, usa o coto do braço ou até a boca para completar afazeres.
Segundo ele, a maior dificuldade não foi física, mas mental. A amputação também trouxe vergonha e um sentimento de isolamento. Varlei acreditava que era a única pessoa no mundo a passar por algo semelhante e evitava sair de casa. Essa percepção começou a mudar quando ele buscou informações na internet sobre próteses e encontrou relatos de pessoas que enfrentaram situações ainda mais delicadas.
A mudança de perspectiva deu origem a uma nova iniciativa: compartilhar sua rotina nas redes sociais. Mesmo com timidez no início, começou a publicar vídeos no Instagram, mostrando o dia a dia na produção leiteira e a própria superação. Em pouco mais de um ano, reuniu 40 mil seguidores que acompanham sua trajetória e se inspiram na forma positiva com que ele encara a vida.
Com planos para o futuro, pretende manter a presença nas redes sociais, usando sua história para incentivar outras pessoas que enfrentam dificuldades. Para ele, a fatalidade não definiu um fim, mas marcou o início de uma nova forma de viver e trabalhar no campo, com a certeza de que sempre é possível encontrar um jeito de seguir em frente.
