
Os desafios enfrentados pela cadeia produtiva do leite em Santa Catarina, a necessidade de ampliar a competitividade e as perspectivas para o futuro do setor foram os principais temas da entrevista do programa Espaço Aberto, da RCO, neste sábado (01). O convidado foi o presidente do Sindileite-SC e do Conseleite-SC, Selvino Giesel, que também abordou os impactos da concorrência internacional, os incentivos estaduais ao setor e os reflexos que um possível episódio de El Niño poderá causar na produção.
Durante a entrevista, Giesel destacou que o principal desafio da produção leiteira brasileira ainda é o custo elevado em comparação aos países vizinhos, como Argentina e Uruguai. Segundo ele, esses países possuem propriedades maiores, produzem alimentos para o rebanho com menor custo e contam com despesas logísticas e tributárias inferiores às brasileiras.
O presidente explicou que somente o custo do frete representa uma diferença significativa. Enquanto no Brasil o transporte do leite até o consumidor custa, em média, entre R$0,13 e R$0,14 por litro, na Argentina esse valor gira em torno de R$0,08. Além disso, a carga tributária sobre equipamentos e investimentos também reduz a competitividade dos produtores brasileiros.
Outro ponto levantado por Giesel é o que considera uma concorrência desleal na importação de leite. Segundo ele, estudos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que produtos argentinos e uruguaios chegam ao mercado brasileiro com preços inferiores aos praticados em seus próprios países de origem.
"Está sendo comprovado que eles maquiam os custos e vendem para o Brasil por valores diferentes dos praticados internamente. Essa não é uma competição real, é uma competição artificial, que prejudica nossas indústrias e nossos produtores", afirmou.
Apesar das dificuldades, Giesel acredita que o Brasil poderá alcançar maior competitividade nos próximos anos. Para ele, o país já demonstra eficiência em cadeias como a de aves, suínos e grãos, e o leite tende a seguir o mesmo caminho com o aumento da escala de produção e dos investimentos em profissionalização.
No cenário estadual, o presidente do Sindileite destacou que Santa Catarina perdeu competitividade frente ao Paraná e ao Rio Grande do Sul desde 2012 em razão das diferenças na política tributária.
Segundo ele, estudos elaborados pelo Sindileite mostram que as indústrias catarinenses desembolsam aproximadamente R$ 300 milhões a mais por ano em tributos do que empresas instaladas nos estados vizinhos. Caso houvesse igualdade nas regras, seria possível pagar cerca de R$0,05 a mais por litro ao produtor catarinense.
Giesel afirmou que o setor apresentou esse levantamento a diferentes governos ao longo dos últimos anos, mas as reivindicações não avançaram de forma definitiva.
Ele reconheceu que medidas temporárias concedidas pelo Governo do Estado trouxeram alívio às indústrias e produtores, mas defendeu uma solução permanente.
"Nós não queremos nenhuma vantagem. Queremos apenas as mesmas condições que o Rio Grande do Sul e o Paraná têm. Precisamos resolver isso definitivamente por meio de uma lei, e não através de programas temporários ou remendos."
O dirigente também mencionou iniciativas como o Pronampe Leite, que oferece linhas de financiamento com juros subsidiados aos produtores, mas ressaltou que esse tipo de incentivo não substitui uma política estrutural de competitividade. Para ele, a futura reforma tributária poderá reduzir parte das desigualdades entre os estados.

Outro tema abordado durante a entrevista foi a possibilidade de um episódio de El Niño provocar excesso de chuvas na região Sul.
Giesel lembrou que o setor enfrentou aproximadamente três anos consecutivos de estiagem, o que elevou os custos de produção, e agora se prepara para um cenário oposto.
Segundo ele, o excesso de precipitações pode prejudicar o desenvolvimento das pastagens, obrigando os produtores a comprar mais ração para alimentar os animais, aumentando novamente os custos da atividade.
Além do clima, ele chamou atenção para outros gargalos que impactam diretamente a produção leiteira, como a qualidade do fornecimento de energia elétrica e a infraestrutura das estradas rurais.
"A questão da energia elétrica precisa ser debatida. O produtor depende de um fornecimento estável e de qualidade, assim como as indústrias. Também precisamos melhorar as estradas, porque já temos um custo de transporte bastante elevado", concluiu.




