O uso das chamadas canetas emagrecedoras pode trazer benefícios importantes para o tratamento da obesidade e até contribuir para a realização mais segura de determinados procedimentos cirúrgicos. No entanto, a utilização sem avaliação e acompanhamento médico pode provocar complicações. O alerta foi feito pelo médico cirurgião Arthur Kasper durante participação no programa Radar da RCO, na manhã desta quinta-feira (16).
Segundo o médico, as medicações chegaram para permanecer entre as alternativas de tratamento da obesidade, mas precisam ser conhecidas por profissionais de diferentes especialidades, já que atuam em vários sistemas do organismo. Ele reforçou que a obesidade deve ser compreendida como uma doença, com impactos sobre a massa muscular e os sistemas cardiovascular, pulmonar e renal.
“As canetas vieram para ficar. Todo médico, independentemente de ser psiquiatra, cirurgião ou clínico, precisa ter conhecimento do benefício, do malefício, das indicações e das restrições dessas medicações”, afirmou.
Arthur Kasper explicou que os medicamentos podem controlar a fome, aumentar a sensação de saciedade e, em alguns casos, reduzir a ansiedade relacionada à alimentação. Apesar dos resultados positivos, ele chamou a atenção para pessoas que adquirem e utilizam os produtos de forma irregular, principalmente em razão do alto custo.
“O paciente que está disposto a usar precisa acompanhar com um especialista, com alguém que tenha conhecimento realmente dos benefícios, dos riscos e dos cuidados. É um medicamento. Antes de começar, é necessário conversar, fazer exame físico, conhecer a história do paciente e solicitar os exames necessários”, destacou.
Na área cirúrgica, a perda de peso pode ajudar especialmente pacientes que apresentam hérnias abdominais. Conforme o médico, a obesidade aumenta a pressão na região do abdômen, favorecendo o crescimento das hérnias e elevando o risco de elas voltarem após uma cirurgia.
Com a redução do peso, o procedimento pode se tornar mais seguro, a recuperação tende a ser melhor e o risco de recidiva pode diminuir. Nesse contexto, as canetas podem ser utilizadas como parte da preparação do paciente para a cirurgia, desde que haja indicação e acompanhamento profissional.
“Usar as canetas a favor do paciente, para que ele consiga perder peso antes de uma cirurgia, pode ser muito benéfico. Só que nem todos os pacientes podem utilizar”, explicou.
Entre as condições que exigem avaliação mais cuidadosa estão alterações na tireoide, no pâncreas, no fígado e na vesícula biliar. Arthur Kasper relatou ter atendido recentemente pacientes que desenvolveram inflamação na vesícula após utilizarem os medicamentos sem o acompanhamento adequado.
Segundo ele, a perda rápida de peso pode favorecer a formação de cálculos biliares. Além disso, as canetas podem reduzir a contração da vesícula. Caso o paciente já tenha pedras no órgão, essa condição pode contribuir para o surgimento de uma infecção.
“Atendi três pacientes que tiveram colecistite, uma inflamação da vesícula, por terem pedras e não terem tido o devido acompanhamento. Tivemos que suspender as canetas, preparar os pacientes e depois realizar a cirurgia”, relatou.
Outro cuidado destacado pelo cirurgião envolve o esvaziamento do estômago. As canetas prolongam a sensação de saciedade justamente porque fazem com que o alimento permaneça por mais tempo no sistema digestivo.
Esse efeito pode interferir no período de jejum necessário antes de uma cirurgia. Mesmo que o paciente permaneça oito horas sem comer, ainda pode haver restos de alimento no estômago, dependendo do medicamento utilizado e da resposta de cada organismo.
Durante a anestesia e a intubação, esse conteúdo pode retornar e atingir as vias respiratórias, aumentando o risco de complicações pulmonares e de obstrução. Por isso, o paciente deve informar à equipe médica que utiliza ou utilizou recentemente algum medicamento para emagrecimento.
“Tem canetas, como a tirzepatida, conhecida pelo nome comercial Mounjaro, que podem manter o esvaziamento retardado por até duas semanas desde a última aplicação. Outras podem demorar até três semanas. São vários cuidados que precisamos ter”, afirmou.
Arthur Kasper reforçou que nenhum medicamento está livre de possíveis consequências. Para ele, as canetas representam uma ferramenta importante no tratamento da obesidade, mas devem ser usadas com responsabilidade, avaliação individualizada e monitoramento profissional, especialmente quando o paciente precisa passar por uma cirurgia.