
O Banco Central adotou um tom de cautela na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (11). Embora reconheça que os efeitos dos juros elevados já começam a aparecer na economia, a autoridade monetária avalia que ainda não há espaço para indicar uma sequência de novos cortes na taxa Selic.
A sinalização ocorre poucos dias depois de o Copom reduzir a taxa básica de juros de 14,25% para 14% ao ano. O corte de 0,25 ponto percentual, anunciado na quarta-feira (5), foi o quarto consecutivo e aprovado de forma unânime. Com a decisão, a Selic permanece, porém, em um dos maiores níveis dos últimos anos.
Na avaliação do Banco Central, a economia brasileira começa a apresentar sinais de desaceleração, mas a atividade ainda demonstra resistência. O mercado de trabalho continua aquecido, com a taxa de desemprego próxima de níveis historicamente baixos. Ao mesmo tempo, o crescimento da ocupação e dos rendimentos perdeu força recentemente, embora os salários ainda avancem acima da produtividade.
A inflação também apresenta sinais de perda de intensidade, mas continua sendo motivo de preocupação. O IPCA acumulado em 12 meses até junho ficou em 4,16%, dentro do intervalo de tolerância, mas acima da meta central de 3%. O teto permitido pelo regime de metas é de 4,5%.
Outro ponto de atenção são as expectativas do mercado. Segundo a pesquisa Focus, os economistas projetam inflação de 5% para 2026 e de 4,2% para 2027, ambas acima da meta. No cenário de referência utilizado pelo próprio Copom, as estimativas são de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Esse cenário ajuda a explicar a cautela do Banco Central. A ata não apresenta uma indicação de quando ou em qual ritmo novos cortes poderão ocorrer. O Comitê afirma que deverá calibrar os próximos passos conforme a evolução da atividade econômica, da inflação e das expectativas.
Além dos indicadores internos, a política fiscal aparece como um dos principais riscos. O Copom voltou a mencionar preocupações com a trajetória da dívida pública, a falta de disciplina fiscal e o crescimento do crédito direcionado. Na avaliação do Banco Central, esses fatores podem aumentar a chamada taxa de juros neutra e tornar mais difícil o processo de desinflação.
No exterior, o ambiente também permanece incerto. As tensões geopolíticas no Oriente Médio, possíveis impactos sobre os preços do petróleo e as dúvidas sobre os rumos da política econômica e monetária dos Estados Unidos podem influenciar a inflação brasileira e as condições financeiras do país.
Diante desse conjunto de fatores, o Copom considera que os riscos para a inflação continuam elevados e assimétricos para cima. Na prática, isso significa que, neste momento, o Banco Central enxerga maior possibilidade de surpresas que levem a inflação acima das projeções do que de uma queda maior que a esperada. Por isso, mesmo com quatro cortes consecutivos da Selic, a autoridade monetária reforça a necessidade de manter uma política de juros restritiva.







