
A proposta do Governo Federal para a nova concessão da Malha Sul, que atende Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, voltou a mobilizar lideranças políticas e representantes do setor produtivo catarinense. Em audiência pública nesta sexta-feira (31), representantes do estado manifestaram preocupação com o modelo apresentado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que prevê a divisão da atual concessão em três lotes independentes.
A principal crítica é que Santa Catarina poderá ficar com uma malha ferroviária menor, menos integrada e sem garantias de investimentos em trechos considerados estratégicos. Atualmente, apenas 17% da malha ferroviária catarinense está em operação, concentrada principalmente entre Mafra e o Porto de São Francisco do Sul.
Entre os pontos considerados mais preocupantes estão a possibilidade de redução de cerca de 41% da extensão da malha concedida, a falta de previsão para recuperação do trecho Mafra–Lages, a ausência de conexões ferroviárias com os portos de Itapoá, Imbituba, Itajaí e Navegantes e a continuidade da dependência do transporte rodoviário pelas BRs 101, 116, 163, 280, 282 e 470.
Além disso, entidades temem que os lotes considerados menos rentáveis não despertem interesse da iniciativa privada, comprometendo investimentos em regiões estratégicas para o desenvolvimento econômico do estado.
Segundo a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), a concessão deveria ser estruturada como uma rede integrada, permitindo que os trechos mais rentáveis financiem aqueles de maior importância logística. A entidade também defende investimentos em novos ramais, modernização da infraestrutura ferroviária, ampliação de terminais e pátios, construção de contornos urbanos e implantação do transporte ferroviário de passageiros.
O coordenador do Grupo de Trabalho de Ferrovias do Codesul, Beto Martins, afirmou que Santa Catarina não participou efetivamente da construção da proposta e criticou a condução do processo.
"Nós estamos sendo ouvidos, mas não fomos escutados. Somos contra o fracionamento porque o custo para Santa Catarina é altíssimo. O estado só não cresce mais por suas deficiências logísticas."
Segundo Martins, a atual modelagem compromete o desenvolvimento econômico catarinense ao manter gargalos que elevam o custo do transporte, especialmente para o agronegócio e a indústria.
O senador catarinense, Esperidião Amin, destacou que o principal objetivo é evitar que decisões tomadas agora impeçam o crescimento da infraestrutura ferroviária nas próximas décadas.
"Nós temos que não comprometer o futuro. Precisamos manter aberto o contato com a rede ferroviária nacional e garantir a integração de Santa Catarina ao sistema."
Já o diretor de Ferrovias e do Agronegócio da Facisc e coordenador do Movimento Pró-Ferrovias, Lenoir Antônio Broch, afirmou que o projeto atual não atende às necessidades do estado, principalmente do Oeste catarinense.
"Hoje, somente o Grande Oeste importa perto de sete milhões de toneladas de grãos por ano. Esse grão percorre cerca de dois mil quilômetros de caminhão. Precisamos pensar na ferrovia como uma oportunidade de transformar esse grão em proteína animal e exportar carne, agregando valor à produção catarinense."
Broch ressaltou que uma malha ferroviária mais ampla reduziria custos logísticos e aumentaria a competitividade do agronegócio, responsável por grande parte das exportações do estado.
A secretária do Codesul em Santa Catarina e secretária de Articulação Nacional, Vânia Franco, reforçou que o estado não é contrário a uma nova concessão, mas sim ao formato apresentado.
"Santa Catarina não aceita o fatiamento da concessão. O que pedimos é mais prazo para discutir um projeto dessa magnitude e que possamos apresentar estudos e argumentos antes da decisão definitiva."
Segundo ela, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) está elaborando um estudo técnico sobre a Malha Sul, que deverá subsidiar uma discussão mais aprofundada antes da definição do novo modelo de concessão.









